Alfabetização financeira e inclusão de gênero


As antigas marchinhas de Carnaval já anunciavam a importância do dinheiro: “Ei você aí! Me dá um dinheiro aí! Me dá um dinheiro aí!(…)”(Moacyr Franco); ou “Dinheiro, pra quê dinheiro? Se ela não me dá bola! (…)”, (Martinho da Vila). Na Cultura Popular, dinheiro importa,  porque é disruptivo e tem o poder de vencer as barreiras de acesso às finanças, gera inclusão interferindo diretamente na qualidade de vida das mulheres.

Se você tem acesso ao dinheiro, terá acesso ao consumo, aos serviços de saúde, à educação de qualidade, ao autofinanciamento na velhice, como, por exemplo, a aposentadoria, proteção e seguridade, a moradia de qualidade. Mas será que todos nós temos as mesmas condições de administrar o dinheiro e impedir que ele perca valor?

No mundo todo, poucas pessoas podem ser consideradas alfabetizadas em finanças. Poucos de nós sabemos como gerenciar as nossas finanças pessoais, porque não aprendemos com a família, ou mesmo na escola, sobre como lidar com o dinheiro. Não aprendemos a gostar de matemática, porque não nos mostram a sua utilidade, nem realizamos tarefas básicas de finanças, como pagar uma conta ou calcular juros compostos para avaliar quando devemos financiar as nossas compras.

Em um estudo realizado em 2018 pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), tradução de “Programme for International Student Assessment”, conduzido a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), testou-se a aprendizagem de matemática de estudantes na faixa etária dos 15 anos de idade, quando se espera a finalização da escolaridade básica obrigatória, na maioria dos países que participam do estudo. O  Pisa (2018) revelou que os jovens brasileiros têm representativa dificuldade para aplicar conceitos básicos de finanças pessoais. Entre os 20 países que participaram do teste, o Brasil foi classificado no 17 º lugar entre as economias avaliadas.

O que esses dados nos mostram, é que nossos jovens terminam a escola sem adquirir o conhecimento básico de finanças necessários para gerenciar bem as finanças na vida adulta. Culturalmente, nós falamos pouco de dinheiro e, especialmente, não criamos o hábito de poupar.

Pensando sobre a dificuldade que as pessoas encontram ao lidar com conceitos básicos de finanças, um estudo realizado pelo “Gallup”- Grupo de Pesquisa de Desenvolvimento do Banco Mundial – entrevistou mais de 150 mil adultos em 140 países, em 2015, com a finalidade de triar a alfabetização financeira global.

A pesquisa mediu o conhecimento que as pessoas apresentam acerca de quatro conceitos financeiros básicos: diversificação de risco, inflação, numeramento e juros compostos. (Relatório de pesquisa “S&P Global FinLit”,2015).

Os resultados revelaram que, no mundo todo, é baixa a taxa de alfabetização financeira e a maioria dos adultos não apresentam o conhecimento necessário para ser capaz de investir, poupar ou gerir seus recursos com eficiência e de forma sustentável. Apenas 32,5% de todos os homens e mulheres, nos 140 países estudados, estão alfabetizados financeiramente. Esse número, por si, já é baixo em termos globais. Quando consideramos as diferenças de gênero na alfabetização financeira, a situação se agrava: O nível de alfabetização financeira das mulheres (30%) é cinco pontos percentuais (5%) mais baixo do que o dos homens (35%).

Adicionalmente, as mulheres se mostram menos confiantes para responder questões básicas de finanças e tenderam a indicar, com mais frequência, “não saber” a resposta. (Fonte: Relatório de pesquisa “S&P Global FinLit”, 2015). A lacuna de conhecimentos de finanças para o gênero feminino foi encontrada, tanto nas economias avançadas, quanto nas emergentes e também variou com o nível de educação, de renda e com a idade. Mas, mesmo com as variações, o déficit de alfabetização de finanças entre homens e mulheres se reproduziu, tanto nos países desenvolvidos, como nos emergentes, sendo mais agravada com a pobreza: 31% dos ricos nas economias do BRICS são alfabetizados financeiramente, em comparação com apenas 23% dos pobres. Fonte:Relatório de pesquisa (“S&P Global FinLit”,2015”).

Além da dificuldade de gerir as finanças pessoais de forma eficiente, a falta de alfabetização financeira conduz ao endividamento e, consequentemente, ao empobrecimento. Um estudo recente do Banco Central sobre o impacto de longo prazo da educação financeira, que contou com a participação de cerca de 25 mil estudantes do nível médio de 892 escolas públicas, em seis estados brasileiros realizada em 2010 e 2011, mostrou que quando submetidos a educação financeira continuada, os indivíduos estudados tiveram uma probabilidade média 9,0% inferior de uso do cheque especial e 6,8% menor de uso do rotativo de cartão de crédito do que o grupo de controle. Esse resultado sugere que a ação de educação financeira tem o potencial de reduzir o uso de compras parceladas que implicam em juros e sugere a tendência a uma maior consciência acerca da importância da poupança. (Fonte: Estudo Especial nº 82/2020 – Divulgado originalmente como boxe do Relatório de Economia Bancária (2019)

Conclui-se que a carência de conhecimentos financeiros básicos é o principal empecilho para que o dinheiro seja disruptivo para as mulheres, de forma a terem uma vida financeira saudável e sustentável. A falta de conhecimentos em finanças prejudica o crescimento econômico, principalmente, por manter as mulheres á margem do consumo, além de dificultar haver uma melhor distribuição de renda entre homens e mulheres. Conforme prega o ditado popular: melhor comprar ações na Bolsa (Bovespa), do que comprar “bolsas”!

Por Vanise Goulart Zimmer.

Presidente e fundadora da Elasbank. É Psicóloga e Empresária Social. Mestre em Psicologia Social e Doutora em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP (2008). É Especialista em Estudos de Gênero e Tecnologia pela Universidade Leibniz de Hannover na Alemanha. Atuou por anos como pesquisadora tendo a oportunidade de desenvolver o tema Cognição e Tomada de Decisão, em Finanças, gestão de portfólio, risco

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