Atraso no início da fala: quando se preocupar com seu filho?

Durante a pandemia, não foram poucos os pais que manifestaram preocupações com o atraso no início da fala de seus pequenos. Mas qual o momento certo para que as crianças comecem a falar? E quando devemos nos preocupar e procurar ajuda profissional? 

Essa é uma preocupação muito comum dos pais que afeta as famílias e impacta o núcleo familiar afetivamente e financeiramente. Durante a pandemia de Covid 19, houve um significativo aumento de queixas de distúrbios de fala, principalmente devido ao isolamento social. A maior dúvida dos pais nesses casos é sobre qual o momento certo para procurar auxílio profissional.

Presas em casa, sem ir na creche ou escola e, muitas vezes, com os pais fazendo todo trabalho de casa e do escritório, as crianças acabaram interagindo menos. Isso aumentou o tempo para que começassem a falar, e muitos pais começaram a se perguntar: “Será que o atraso no início na fala é decorrente da falta de contato social? Ou, de fato, meu filho tem algum tipo de problema que pode estar interferindo no aprendizado da linguagem?”

Em relação ao tema, conversamos com Carla Ciceri Cesa, fonoaudióloga especialista em Fonoaudiologia Neurofuncional e doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A seguir, confira os principais pontos da entrevista.

Qual a influência da Pandemia no atraso no início da fala das crianças?

De acordo com Carla, ao analisar os atendimentos de sua clientela, é possível identificar dois perfis de crianças afetadas pela pandemia. As que apresentaram Transtornos de Fala e as que tiveram Transtornos de Desenvolvimento de Linguagem.

Os transtornos de fala são os motivados pelo isolamento e pelo grande número de horas de utilização de telas (celulares, tablets ou televisão).

Segundo Carla, o baixo estímulo de sociabilização e comunicação é o principal responsável por esse problema. “Por não conseguirem brincar com crianças da mesma faixa etária, acabaram tendo a aprendizagem da fala prejudicada. Em alguns casos, até mesmo interrompida.”

Por outro lado, os transtornos de linguagem são identificados em crianças que já tinham alguma dificuldade para se comunicar. Seja de origem orgânica ou psíquica, essa dificuldade foi acentuada pelo distanciamento social. Nesse caso, são crianças que já apresentavam problemas psicoafetivos e de comunicação, intensificados na pandemia.

Geralmente, os familiares começam a perceber que o desenvolvimento da fala da criança não está adequado por volta dos 2 ou 3 anos de idade. Ou seja, nessa fase as crianças já deveriam estar falando. Alguns indícios desse problema são quando a criança:

– não fala ou demora para falar;

– começa a falar, mas com vocabulário muito restrito,

– não consegue combinar palavras para formar frases.

O que é Distúrbio Específico de Linguagem e qual a sua relação com o atraso no início da fala?

O Distúrbio Específico de Linguagem é uma dificuldade persistente para adquirir e desenvolver a fala e a linguagem. Aparentemente, a criança possui todas as condições para falar. No entanto, ela não consegue ou apresenta muita dificuldade nesse processo. 

Nesses casos, é preciso uma série de exames para avaliar se há problemas estruturais no Aparelho Fonador ou se há alguma forma de comprometimento no Sistema Nervoso Central. Isso porque esses exames mostrarão se ambos se comunicam devidamente, ou se a criança apresenta transtorno global no desenvolvimento. Alguns exemplos de problemas relacionados a isso são autismo e deficiência intelectual 

E como foi a evolução dessas crianças ao tratarem o atraso no início da fala?

De acordo com a fonoaudióloga, as crianças que apresentaram somente transtorno de fala responderam de forma mais rápida aos estímulos da terapia. No entanto, as que apresentaram transtorno de linguagem, muitas vezes têm questões relativas à maturação do Sistema Nervoso Central, que necessitam serem resolvidas. Por isso, o avanço da fala e da linguagem ocorre de forma mais lenta, sendo fundamental a continuidade do tratamento.

Em ambos os casos, Carla aconselha que a criança seja avaliada e acompanhada por uma equipe interdisciplinar. Ou seja, é importante contar também com psicólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, quando necessário. Porém, essa necessidade é maior quando há o transtorno de linguagem.

Como funciona o trabalho dessa equipe interdisciplinar?

Nesse sentido, Carla explica que esses profissionais podem tanto atuar em um mesmo complexo de atendimento, quanto em consultórios individuais. No entanto, a participação de alguns (ou, eventualmente, de todos) é fundamental para que a criança se recupere forma plena e mais rápida.

Segundo a fonoaudióloga: “pode ser que a criança tenha algum distúrbio de integração sensorial (como um extremo incômodo com ruídos, falta de habilidades motoras ou o simples fato de ter mudado de escola, por exemplo). Nesse caso, ela precisa do acompanhamento de um terapeuta ocupacional. Ou seja, alguém que trabalha atividades diárias e práticas do cotidiano. Por exemplo, incentivando a criança a se vestir, tomar banho, escovar os dentes e cuidar de outros hábitos de higiene e cuidados pessoais.”

O trabalho do terapeuta ocupacional é fundamental nesses casos, pois ele vai estimular a motricidade fina, como pegar no lápis para desenhar ou escrever. Assim como a fala, isso tudo está ligado ao processo de aprendizado e maturação do Sistema Nervoso Central. Por isso, é importante trabalhar todos esses aspectos em conjunto.

Por sua vez, o trabalho do fisioterapeuta contribui para o desenvolvimento motor global da criança. Já o papel do psicólogo é muito importante para o desenvolvimento emocional da criança. Além disso, também auxilia na aquisição da linguagem e na orientação parental para lidar com as dificuldades atuais da criança.

Nesse sentido, o psicólogo faz a orientação aos pais em relação a possíveis estratégias para lidarem com as dificuldades dos filhos enquanto são tratados. Para a fonoaudióloga, com o apoio dos pais, a criança consegue ter mais capacidade para lidar com as próprias frustrações. Isso surte um efeito muito positivo em relação ao trabalho de toda a equipe interdisciplinar responsável pela assistência.

E quando procurar o auxílio desses profissionais?

Segundo Carla, o ideal é que, até os dois anos, a criança já esteja falando. “No entanto, caso você observe algum comportamento atípico, como suspeita de que o seu filho não esteja ouvindo bem ou que não compreende o que lhe dizem, deve procurar imediatamente auxílio, independentemente da idade”, alerta a fonoaudióloga.

Por fim, a fonoaudióloga acrescenta que, mesmo antes da fala, é importante que as mães fiquem atentas à forma como as crianças brincam.

“Se elas não apresentam um jogo simbólico (o “faz-de-conta”), precisam ser precocemente avaliadas por um fonoaudiólogo e por um neuropsicólogo”.

Links úteis para Centros de Avaliação e Tratamento de Transtornos da Fala e da Linguagem

Fonte: INSTITUTO ABC

  1. Associação Brasileira de Dislexia (ABD)
  2. Centro Especializado em Distúrbios de Aprendizagem (CEDA)
  3. Centro de Investigação de Atenção e Aprendizagem (CIAPRE)
  4. Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar da Universidade Federal de São Paulo (NANI/Unifesp)
  5. Laboratório Distúrbios, Dificuldades de Aprendizagem e Transtorno de Atenção (DISAPRE) – FCM-Unicamp
  6. Projeto Gato de Botas
  7. Associação Nacional de Dislexia (AND)
  8. Projeto ELO da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
  9. Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND-UFMG)
  10. Projeto LEIA – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
  11. Projeto Acerta – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)
  12. Universidade Federal da Paraíba (UFP)

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